Os cozinhados e benefícios das
“caixas de fazer comida”, como Saussure apelidou os fornos solares, deliciaram os estudantes tavirenses. Para dar o primeiro passo no combate das carências energéticas, um grupo de alunos da EB23 D. Paio Peres Correia foi, em 2008, até Porto Novo mostrar aos colegas cabo-verdianos como construir fornos solares. 3 anos depois, fomos recuperar as memórias do grupo português.
O início da jornada

Uma Oficina de Construção de Fornos Solares de Baixo Custo
A Oficina de Construção de Fornos Solares de Baixo Custo, parte integrante do programa anual de atividades oferecido pelo Centro Ciência Viva de Tavira, foi convertida em projeto educativo: o ImpulSolar.
Filipe Santos, bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia e colaborador do Ciência Viva na altura, foi o mentor do ImpulSolar. Ao Scientia, o investigador afirmou que este projeto “surge como a hipótese de as turmas que frequentam a oficina poderem aplicar os seus conhecimentos e converterem-nos em algo útil para comunidades carenciadas”.
Em 2008, coube ao 8º B da EB23 D. Paio Peres Correia abraçar este desígnio. Segundo um dos alunos, o grupo desde logo revelou um espírito proativo: “Quando, em sala de aula, nos foi lançado o repto para nos envolvermos neste trabalho, aceitámos de imediato, apesar de não termos qualquer noção de como se construíam fornos solares”.
O primeiro passo foi participar na oficina supra-referida, de forma a possuírem as bases teóricas necessárias. Com as noções adquiridas, cada estudante construiu, seguidamente, diversos protótipos que foram alvo de avaliação científica na disciplina de Ciências Físico-Químicas.
Sobre a complexidade desta fase, Rui, de 17 anos, respondeu ao Scientia que “a curiosidade e a dúvida foram factores determinantes neste trabalho, ao constituírem o pavio da vela da aprendizagem. Assim, tudo pareceu mais fácil, além de, em qualquer sítio (como pudemos comprovar em Cabo Verde), sermos capazes de arranjar o cartão, o papel de alumínio, as panelas negras e o plástico necessários para construir vários fornos solares”.
Ao longo de largos meses, o grupo dedicou-se a várias tarefas. Na disciplina de Educação Visual e Tecnológica, conceberam um forno solar mais eficaz e produtivo, tendo por base conclusões da análise científica. Com a ajuda das Tecnologias de Informação e Comunicação, elaboraram um manual para a produção de fornos solares. De forma a prepararem a viagem, contactaram as entidades do concelho geminado com Tavira, Porto Novo.

A prova culinária
Envolvendo toda a comunidade escolar, a parte por que todos os alunos ansiavam - a ida a Cabo Verde - tornou-se realidade. Cheia de conhecimento e boa disposição, a comitiva portuguesa chegou à Escola Secundária de Porto Novo. Como recorda Pedro, de 17 anos, as apresentações foram dispensadas: “À chegada, houve uma receção muito calorosa! E o facto de termos trocado correspondência com os colegas cabo-verdianos antes da viagem permitiu criar alguma aproximação e quebrar o gelo, ainda que a interação presencial seja sempre diferente”.
Em regime de masterclass, os alunos lusos, auxiliados por técnicos do Ciência Viva e com recurso apenas a materiais recolhidos na comunidade, explicaram o procedimento, responderam a dúvidas e construíram o forno solar. Para comprovar a eficácia do que haviam produzido, não faltou petisco.
Recorrendo apenas ao Sol, todos puseram à prova os seus dotes culinários e cozinharam diversas panelas de caldeirada à Cabo Verde. Apesar deste tipo de cozinha ser mais lento, o veredicto foi consensual: o sabor e aspecto da iguaria no forno solar não ficou nada atrás, se não ainda melhor, que a tradicional.
O balanço e o futuro

O empenho comunitário em Cabo Verde
Após cinco dias de enriquecimentos, o grupo proveniente de Tavira partiu de Cabo Verde com uma certeza: a sede de aprender naquela ilha é muita e o apreço dos jovens pela aprendizagem e pela cooperação é enorme.
Tal como consta do relatório final do projeto, a que o Scientia teve acesso, “perante as condições de vida daquele município, os estudantes de Porto Novo tiveram e têm uma atitude muito positiva. Nos meses seguintes, foram eles que contaram aos graúdos o que tinham aprendido e que cozinharam refeições para a comunidade”.
Em declarações ao Scientia, o diretor do Centro Ciência Viva de Tavira traçou rasgados elogios ao projeto: “Face ao exponencial aumento do consumo de energia, urge a necessidade de cada um de nós se pautar por práticas racionais na gestão dos recursos. A cozinha solar está a revelar-se uma solução importante para o problema com que nos debatemos. (…) É para esta enorme ferramenta que o ImpulSolar pretende consciencializar e motivar os jovens”.
Um dos estudantes participantes faz o convite: “Numa época como a atual, é crucial conhecer outras alternativas. O projeto foi muito bom ao ajudar-me a diversificar competências e a vivenciar novas experiências”.
Em zonas com uma média anual de dias de sol elevada e fraca pluviosidade, os benefícios que se podem obter desta tecnologia são imensos. Poder-se-á diminuir a desflorestação, bem como reduzir a dependência de combustíveis fósseis; melhorar o nível de vida das populações, ao incrementar condições sanitárias adequadas aquando da confecção de alimentos e estimular a economia, pela criação e implementação de negócios ligados à produção e venda de fornos solares.
Difundir conhecimento. Procurar parcerias de forma a aumentar a utilização de fornos solares. Combater a pobreza. Metas claramente em cima da mesa do Centro Ciência Viva de Tavira que, com o sucesso obtido, tornam esta experiência em algo a repetir. "A ida a Cabo Verde foi uma primeira experiência de um projeto que se quer mais alargado. A ideia é levar escolas e turmas a entrar em contacto com escolas de outros países que possam usufruir desta tecnologia", afirma Filipe Santos.
Seja um impulso para o lar de cada um ou para impulsionar a energia e cozinha solar, este projeto está à espera de passar do papel para a realidade comunitária mundial há mais de 2 anos.
Este texto foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico.